Neste filme de Argento, após o assassinato de duas prostitutas, um investigador aposentado (Max Von Sydow) tem a chance de resolver um crime ocorrido há 17 anos. Para isso, conta com o auxílio do filho (Stefano Dionisi) de uma das vítimas. O roteiro não é dos mais originais. O interessante em Non Ho Sonno, como em quase todos os filmes de Dario Argento, é a forma como a história é apresentada.
Gore em doses não tão fartas, mas com algumas cenas que causam repulsa. Os assassinos de Dario costumam matar de forma lenta e dolorosa. Neste caso, as mortes têm uma semelhança considerável com as que ocorrem em Profondo Rosso. Os destaques são para duas cenas: a do trem, uma sequência em que o suspense é muito bem construído. E a morte do cisne, em que há uma pitada de Hitchcock, pois já sabemos o que irá acontecer. A câmera passeia pelo chão e os movimentos dos pés, do aspirador de pó, as conversas em off dos bastidores do espetáculo, tudo isso somado à música de Goblin fazem da cena uma bela sequência de suspense em termos de linguagem cinematográfica.
Para quem gosta de Max Von Sydow, um dos atores preferidos do sueco Ingmar Bergman, é uma ótima oportunidade para vê-lo fazendo um filme de suspense/terror do Dario Argento. E atentem à trilha sonora. Goblin tem uma parceria com o diretor há um longo tempo (basta lembrar de Suspiria, do qual, inclusive, está sendo feito um remake, no qual Dario está envolvido parcialmente). E a música deste filme é fabulosa. De certa forma, remete aos anos 1970 e 1980.
Simplesmente Feliz narra o cotidiano de Poppy (a excelente Sally Hawkins), uma jovem de felicidade inabalável. Roubam a bicicleta de Poppy e ela abre um sorriso. Gritam com Poppy e ela esboça outro sorriso. Insultam Poppy e ela acha graça. Ignoram Poppy e ela reage de forma jovial. Irritante, né?
Talvez esta seja a intenção de Mike Leigh. Curiosamente, algumas pessoas que veem esse filme (fiz uma pequena pesquisa empírica) não aguentam vê-lo por completo ou, simplesmente, não suportam a felicidade de Poppy. Leigh proporciona algumas reflexões com esta leve comédia. Principalmente, no que se refere ao individualismo exacerbado que permeia a vida das pessoas, levando-as a se focarem tanto em suas próprias existências que… Ao encontrarem alguém como Poppy reagem com frieza ou sentem-se admoestadas.
Poppy parece um oásis em meio ao deserto. Enquanto que está preocupada em sair pra balada e beber até cair, pular e gritar com seus alunos como se fosse um deles e sorrir e com tudo o que lhe acontece, o resto dos personagens destoam dela por levarem vidas convencionais, seguindo uma espécie de manual. Em determinado momento, alguém diz que ela deve “se ajeitar na vida” porque somente assim ela será feliz. E Poppy responde: “o.O Mas eu sou feliz! ”.
Se não aguentar pessoas alegres demais, passe longe. Mas é impossível ver este filme sem sentir uma pontinha de inveja de Poppy. Ver a vida como ela é coisa para pouca gente.
Duas Soluções Para Um Problema é um curta com duração de cinco minutos de 1975 que narra a história de dois garotos que se desentendem por conta de um livro. O filme é assinado pelo iraniano Abbas Kiarostami, diretor do premiado Gosto de Cereja.
Didaticamente, Kiarostami apresenta dois desenvolvimentos e respectivos desfechos possíveis para a desavença das duas crianças. Como em Gosto de Cereja, ele já mostra aqui maior apreço em mostrar ações do que muitos diálogos e já contribuía para sua fama do diretor que diz nada, mas diz tudo.
Após aborto, casal decide adotar uma garotinha. Com o tempo, a esposa começa a desconfiar do comportamento da menina, mas não consegue convencer o marido. Esta é a sinopse mais sucinta possível de A Órfã, filme lançado este ano pela Dark Castle e dirigido por Jaume Collet-Serra, que já fez, dentre outros filmes, A Casa de Cera.
A princípio este roteiro pode não ser muito atrativo por caracterizar mais um dos inúmeros que têm sido lançados nos últimos anos da série “crianças malvadas”. E nem A Órfã chega a ser um filme excepcional. Contudo, é um boa diversão.
Tem um bom elenco, em especial Isabelle Fuhrman, que faz a personagem Esther e Aryana Engineer que interpreta Max, a filha mais nova do casal. O centro da ação está quase que inteiramente nelas e ambas têm uma boa performance. O filme tem um desenlace original e, embora um tanto estrambólico, é perfeitamente possível chegar à explicação dada pelo filme a partir de determinado momento de projeção. Em muitos momentos, A Órfã se assemelha a Anjo Malvado.
Mas tem seus escorregões. Algumas cenas de “susto fácil” que em nada acrescentam, além de pequenos tropeços no roteiro quanto a dados do passado de Kate(Vera Farmiga), a mãe. E o que é mais grave: querendo ou não, o filme constrói uma imagem negativa da adoção. Se já é difícil o trabalho de profissionais ligados a esses programas, o filme dá quase nenhuma importância a isso e reproduz a já clichê imagem do psicólogo que surge como o solucionador do mistério(do roteiro, é claro). E nada mais.
Depois de Ônibus 174 e Tropa de Elite, José Padilha surge neste ano com o documentário Garapa, um filme forte que trata de um problema que não é exclusividade brasileira: a fome. Não a fome de quem não tem nada para comer, mas aquela em que a péssima alimentação leva a desnutrição e, muitas vezes, à morte.
O filme segue o cotidiano de três famílias cearenses, duas do interior do estado e outra da periferia de Fortaleza. Em preto e branco, sem narração e pouca apresentação de dados sobre a fome (exceto ao final), o filme centra-se principalmente no tratamento dado às crianças que, não tendo o que comer, vivem à base de garapa, uma mistura de água e açúcar que as mães preparam.
Como o filme não entra no mérito da mera informação, mas apenas mostra uma situação, não vemos o poder público ser acionado. São feitas algumas perguntas às famílias acerca dos benefícios concedidos pelo Governo Federal, mas não passa disso. José Padilha explicou que sua intenção ao fazer o filme era mostrar a fome de maneira universal.
Garapa é um filme que mostra uma realidade não só de fome, mas também de desinformação por parte dessas famílias. Se prestarem atenção, poderão notar que ele até quis dar um tom universal, mas Garapa reflete problemas culturais e sociais brasileiros muito específicos. Inclusive do Nordeste.
Falsas Aparências é uma adaptação do livro Fingersmith da escritora Sarah Waters. Dividida em três partes, é assinada por Aisling Walsh, cujos trabalhos são quase todos para TV, inclusive este.
Como o próprio nome sugere, nesta história, nem tudo o que vemos representa a verdade ou, pelo menos, toda a verdade. O roteiro nos dá várias sugestões da verdade ao apresentar diferentes versões do que aconteceu e depois desconstruí-las e nos apresentar a última.
Isso sim é interessante porque fica a sensação de que muitos episódios poderiam ter sido feitos a partir da perspectiva e do conhecimento, ou falta dele, que cada personagem tinha do que estava realmente acontecendo.
A história se passa em 1862, na Inglaterra. Susan Trinder(Sally Hawkins) é uma órfã criada em meio a um grupo de ladrões que planejam fraudar a inocente Maud Lilly(Elaine Cassidy). E Susan é peça importante no embuste. Levada por Richard/Gentleman(Rupert Evans) à casa de Maud para passar-se por sua criada, Susan logo pensa que será fácil enganar uma garota tão ingênua. No entanto, as coisas ficam complicadas quando Susan se apaixona por Maud.
Se você não ficar surpreso com o desfecho dos acontecimentos, achará, no mínimo, interessante a forma como as ações vão se desenrolando. Fingersmith é repleto de reviravoltas e quando você pensa que está tudo muito claro é que as coisas começam a ser, de fato, explicadas.
O elenco ainda conta com nomes de peso como Charles Dance, que interpreta o tio de Maud.
PS: Post dedicado especialmente a Srtª Scarlet que me indicou a série e insistiu para que eu a assistisse. E a Jen, que me pediu que dissesse o que achava quando terminasse de ver. =]
Por favor, não o incentivem. Caso contrário, ele não para mais.(Lady Trentham)
Assassinato em Gosford Park é uma parceria entre o roteiro de Julian Fellowes e a direção magnífica de Robert Altman. Poderia ser muito fácil de se perder com a riqueza de detalhes do roteiro e do grande número de personagens, mas isso não acontece. E o resultado é bastante bom. Tanto que o filme recebeu o Oscar de melhor roteiro e ainda recebeu indicações tanto nesta como em outras premiações.
A história se passa na Inglaterra dos anos 1930 e os acontecimentos do filme ocorrem em um final de semana quando William McCordle(Michael Gambon) e sua esposa, Sylvia McCordle(Kristin Scott Thomas), recebem alguns parentes para uma caçada. Dentre eles está o ator Ivor Novello, um primo distante da família que é interpretado por Jeremy Northam. E a tia de William, Constance Trentham(Maggie Smith).
O elenco é enorme e divide-se em dois núcleos: o dos convidados e o dos criados. De forma sutil, o filme reproduz os costumes da época na forma de uma comédia sutil e carregada de acidez em alguns momentos. Embora a elite seja alvo desse humor mordaz, a criadagem tem o seu quinhão, afinal ninguém é santo por sua posição social ou financeira. Os dois núcleos estão dicotomizados, mas não como bons maus, opressores e oprimidos, embora esses aspectos sejam vislumbrados em muitos momentos. Trata-se de dois lados, no sentido mais literal mesmo. É como uma personagem diz à certa altura ao personagem de Ryan Phillipe: “ou você está de um lado ou está do outro. Não pode pertencer aos dois”.
O filme torna-se um exercício de atenção porque as cenas quase sempre são contínuas, principalmente as cenas de reunião social. As ações dos personagens são mostradas de forma entrecortada e, às vezes, duas num mesmo plano, dando ênfase imagética a uma: Ivor Novello tocando piano com alguém a seu lado, um diálogo entre Sylvia e seu cunhado, Lord Raymond Stockbridge(Charles Dance), e a esposa deste, Louisa Stockbridge(Geraldine Somerville), surgindo sorrateiramente pela sala, analisando suas próprias roupas e sentando-se numa poltrona. Todas as ações são importantes para entender qual o caráter dos personagens e que tipo de relações eles têm uns com os outros.
A direção dessas cenas foi feita de forma primorosa. Uma das mais curiosas é a que um dos empregados da casa está tranquilamente encostado à parede, fumando um cigarro e, ao ouvir o barulho de passos, muda rapidamente de posição para simular ação. E, seu alívio, quase imperceptível, ao constatar que os passos eram de outras empregadas.
Quanto ao “assassinato” do título em português, realmente há um assassinato. Ele ocorre quase ao final do filme. Vários personagens desaparecem no momento do crime, mas é possível saber o autor do assassinato, o que é apenas um detalhe dentro da história. Mais importante mesmo são as motivações.
No elenco ainda estão Clive Owen, Tom Hollander, Helen Mirren e Emily Watson.
Harper’s Island é uma série criada por Ari Schlossberg com apenas treze episódios, mas que não deve ter continuação. Por que uma continuação seja impossível diante do desfecho? Não. Sempre há a possibilidade de um roteirista fazer daquele desenlace ou de qualquer outro uma sequência. O cinema está aí para provar isso. Por que a TV não faria coisa semelhante? O problema maior é que uma segunda temporada poderia ser mais absurda do que a primeira.
A série, inspirada no livro O Caso dos Dez Negrinhos da escritora Agatha Christie, gira em torno de um casamento. Henry e Trish reúnem os familiares e amigos íntimos para a realização da cerimônia na ilha. Dentre os convidados, está Abby, que é a melhor amiga de Henry e está vindo à ilha pela primeira vez depois de sete anos, época em que ocorreu um crime terrível no local.
A partir daí é só matança. Às vezes chegam a ser três mortes por episódio. Não há desenrolar de um argumento porque simplesmente não há um. A impressão que fica é que os roteiristas se amarraram nas várias histórias paralelas de adultério, ambição, tramas maquiavélicas dos personagens para conseguirem determinadas coisas e não conseguiram achar o foco novamente. Nos últimos três episódios é feito um arremedo de explicação tão clichê e, por isso mesmo, inverossímil, deixando qualquer pessoa um pouquinho mais experiente com produções de suspense com a sensação de ter perdido seu tempo.
Os clichês de Harper’s Island são de deixar os cabelos em pé, mas o que certamente mais irritará o espectador é o que se convenciona chamar de “susto fácil”. Um artifício que diretores e roteiristas deviam ter vergonha de usar porque só demonstra sua incapacidade de criar uma cena realmente carregada de suspense. O que acontece é simples: chega um momento em que planos fechados demais no personagem já sugerem ao espectador que alguém, que não é o assassino, surgirá pelas suas costas e dará um susto no personagem, sem querer.
Além disso, os episódios são grosseiramente editados com cortes bruscos no meio das falas, simulando um suspense que não existe e os diálogos são mal-escritos. Atente para o momento em que o assassino “misterioso” se revela, o que ele diz e a forma como diz. É risível.
A coisa toda é conduzida de forma muito ineficiente. Nos últimos episódios, o roteiro aponta para um personagem de forma tão evidente que nem o mais ingênuo dos espectadores deixaria de pensar que é um engodo. Como se não bastasse, repete a mesma performance com outro personagem mais a frente, perdendo de vez a credibilidade. A verdade é que o final é previsível. Restam poucas alternativas e o roteiro faz questão de gritar que o assassino é X para não pensarmos em Y. Ocorre exatamente o contrário.
No elenco estão Christopher Gorham que faz o personagem de Henry, e que já fez séries como Popular. E a atriz Elaine Cassidy, que já fez bons trabalhos de suspense como Os Outros e Falsas Aparências, como Abby. Assistam a Falsas Aparências se quiserem ver um bom suspense mesmo. E com a mesma atriz de brinde.
Alexandra é um sensível filme que vai além da temática de guerra. Usando como cenário espacial e temporal o conflito entre a Rússia e a região da Chechênia, consiste em uma pequena história de uma senhora, Alexandra, que vai visitar o neto, o soldado Denis. Tudo nos é apresentado pela visão de Alexandra.
A câmera é detalhista com planos fechados e médios. Alexandra passa pouco tempo no acampamento dos soldados russos. Mas é o bastante para interagir com eles e com os moradores de um pequeno vilarejo que fica nas proximidades. Engraçado que lá ela se depara tanto com atitudes hostis como gentis por parte dos chechenos que encontra.
Nos silêncios e escassos diálogos dá para refletir sobre os sentimentos dos personagens que sofrem e se compadecem uns dos outros, embora estejam de lados opostos.
É um filme que estimula mais o olhar do que os ouvidos. Os poucos diálogos permitem o espectador mais observar do que poluir a mente com conversas prolongadas e, às vezes, sem necessidade para o roteiro. Atente para as cenas em que os soldados comportam-se como crianças carentes e ansiosas para agradar uma velhinha rabugenta.
Estendendo-se por duas horas e adotando um narrador, ou melhor narradora, para colocar o espectador a par dos acontecimentos, Crepúsculo é bastante fiel ao livro homônimo no qual se baseia. Apesar de conseguir a proeza de ser mais sofrível do que a história escrita por Stephenie Meyer.
Literatura e Cinema são suportes diferentes o que torna difícil, e até mesmo injustificável, uma comparação. Contudo, é importante ressaltar que se o livro de Meyer não se preocupa com o desenvolvimento dos personagens, o filme dirigido por Catherine Hardwicke nem tenta fazer isso.
A história de Crepúsculo é bem simples: Bella Swan(Kristen Stewart) decide morar com o pai por um tempo numa cidade minúscula chamada Forks. Lá, conhece um misterioso adolescente, Edward Cullen(Robert Pattinson), e seus irmãos igualmente misteriosos com quem se envolve e, aparentemente, são as únicas pessoas que a atraem na cidade.
Vampirismo já um tema batido demais pela cultura pop. Desde que Bram Stoker decidiu criar Drácula. Hoje vampiros figuram-se entre os mais cultuados vilões(de uns tempos para cá, eles começaram a aparecer como mocinhos das histórias) do universo ficcional.
Em um caminho pelo qual tantos já enveredaram, é difícil fazer algo novo. Isso partindo-se do pressuposto que Crepúsculo tem essa intenção. O que está em foco aqui é uma história romântica entre dois adolescentes. O vampirismo não é praticamente explorado, servindo apenas como pano de fundo e uma bela de uma metáfora pudica para a história de Bella e Edward.
Efeitos especiais medianos, às vezes bem fracos, o que pode ser explicado pelo baixo orçamento do filme de 37 milhões de dólares. Atuações sofríveis com destaque para Robert Pattinson e Jackson Rathbone que interpreta Jasper Cullen. Jasper é descrito por Meyer como o mais recente membro da família Cullen e o menos acostumado à vida que eles levam. A atuação de Rathbone consiste em arregalar os olhos todas as vezes em que Bella chega perto dele. Ou simplesmente todas as vezes que a câmera o mostra. É isso.
Crepúsculo funciona como uma metáfora para a virgindade. Não é por acaso de que Edward, em Lua Nova(segundo livro da série), promete que irá morder Bella somente quando os dois se casarem. Isto, num plano superficial, é a transformação de Bella em vampira. Num plano simbólico, é a perda da virgindade.
O que dá margem para interpretações é o relacionamento que Bella desenvolve com Alice(Ashley Greene), irmã de Edward. O fato de Alice elogiar o cheiro de Bella e esta gritar “Me morda!” para a amiga em um momento de desespero poderia indicar um sentido homossexual no texto de Meyer.
Lua Nova, segundo filme da série, já está em fase de pós-produção e tem previsão para estrear em novembro deste ano.